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A tripanossomíase americana, posteriormente denominada doença de Chagas em homenagem ao seu descobridor o pesquisador brasileiro Carlos Chagas, é uma importante doença parasitária resultante da infecção pelo protozoário parasito hemoflagelado Trypanosoma cruzi, tendo insetos triatomíneos como vetores. As formas mais importantes de transmissão da doença de Chagas ainda são as vetoriais (seja via lesão resultante da picada, seja por mucosa ocular ou oral), contudo apresentam também importância epidemiológica a transmissão transfusional e congênita.

Na década de 80 do século XX, diversos autores estimavam que a doença atingia cerca de 18-20 milhões de indivíduos nas áreas endêmicas da América Latina.

Dados recentes da Organização Mundial da Saúde , divulgados após encontro de especialistas na Argentina em 2005, indicam a existência de 16-18 milhões de infectados pelo T. cruzi, contudo em recente publicação Dias Scielo estima este número em 12-14 milhões de indivíduos na América Latina, sendo ainda encontrados indivíduos contaminados em países da Europa e América do Norte, na maioria das vezes resultante da migração de indivíduos infectados em busca de melhores condições de vida. Estes dados mostram a inexistência de inquérito epidemiológico recente e indicam, como apontado pela OMS, a necessidade ainda atual de conhecimento da prevalência e incidência da doença. De qualquer modo, os números indicam a importância social da doença de Chagas100 anos após sua descoberta.

No Brasil, é compulsória a notificação de casos agudos da doença de Chagas, segundo a Portaria 5 de 21 de fevereiro de 2006 da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Devido aos recentes surtos de infecção aguda pelo T. cruzi, principalmente infecção por via oral, após reunião de especialistas e cientistas em 2005 a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde lançou o Consenso Brasileiro em Doença de Chagas. Informações oficiais do Ministério da Saúde do Brasil sobre diversos aspectos da doença de Chagas podem ser obtidas no Portal da Saúde do Ministério da Saúde.

Ainda que iniciativas da OMS e de governos da América Latina tenham levado ao controle da transmissão vetorial da doença em diversas áreas endêmicas pelo seu principal vetor, o Triatoma infestans, a inexistência de vacina e de tratamento eficaz, principalmente para os pacientes com a forma crônica da doença, são ainda desafios a serem enfrentados. Um dos desafios atuais no tratamento de pacientes infectados pelo T. cruzi é a identificação de marcadores clínicos e laboratoriais indicadores de risco ou prognóstico para o desenvolvimento de arritmias, falha cardíaca e morte para um indivíduo chagásico.

O diagnóstico da infecção aguda, crônica ou congênita emprega métodos parasitológicos, sorológicos e moleculares. Após a infecção, a maioria dos indivíduos apresenta fase aguda assintomática. Anos, ou mesmo décadas, após a fase aguda da infecção ~40% dos pacientes desenvolvem formas sintomáticas da fase crônica da doença.

A patologia é principalmente caracterizada pela forma cardíaca, com cardiomiopatia dilatada associada com miocardite, fibrose e disfunção cardíaca. Cerca de 10% dos indivíduos infectados desenvolvem a forma gastro-intestinal que pode resultar em mega-cólon e/ou mega-esôfago, que são frequentemente associadas à forma cardíaca, constituindo a forma crônica mista.

Neste livro revisitamos a história da descoberta e dos principais achados que a ela se seguiram com relação ao parasito, vetor, a doença e seu diagnóstico e tratamento, assim como pontos relevantes na pesquisa científica. Trazemos reflexão sobre conceitos saúde/doença e ferramentas educativas, visando população em condição de risco de infecção. Usamos linguagem científica, mas acessível a estudantes e não acadêmicos interessados no tema.