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Ana Maria Jansen-Franken
Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos, Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz
E-mail: jansen@ioc.fiocruz.br

O sucesso da iniciativa do Cone Sul na eliminação da transmissão vetorial intradomiciliar do Trypanosoma cruzi no Brasil, derivou da maciça campanha de borrifação com a resultante erradicação do principal vetor: o Triatoma infestans.

A perspectiva de que os nichos vacantes resultantes da eliminação do T. infestans pudessem ser ocupados por espécies de triatomíneos silvestres, levou a que fosse reconhecida como fundamental, a manutenção da vigilância epidemiológica.

Embora não haja como realizar vigilância epidemiológica sem considerar todos os elos da cadeia de transmissão e a paisagem onde ocorrem, a maioria absoluta das ações e projetos de vigilância epidemiológica está baseada no levantamento e coleta de triatomíneos em domicílio e peridomicílio, além, é claro do monitoramento de novos casos da doença de Chagas. No entanto, é preciso lembrar que os triatomíneos vetores adquirem a infecção por T. cruzi se alimentando sobre seus hospedeiros e/ou reservatórios, que podem incluir um número expressivo de espécies de mamíferos. É preciso lembrar, no entanto, que o T. cruzi é um parasita eclético quanto a seus hospedeiros e habitats e é transmitido em redes parasitárias bem estabelecidas em todos os biomas do país e que este é um aspecto que deve ser incluído nas ações de vigilância sanitária.

O ciclo de transmissão do T. cruzi no ambiente silvestre ainda é um quebra-cabeças não resolvido na medida em que apresenta peculiaridades regionais e temporais, macro e micro ecológicos, que interferem na interação deste parasito com seus hospedeiros e vetores. A complexidade dos ciclos de transmissão deste parasito fica evidenciada pelos recentes surtos da doença de Chagas que aconteceram em diversas regiões do Brasil. Estes surtos ocorreram independentemente da domiciliação de triatomíneos e vêm sendo atribuídos (ainda em alguns casos sem comprovação empírica) à ingestão de alimentos contaminados com as formas metacíclicas infectantes derivados de insetos.

Estes surtos, bem como outras questões ainda não respondidas, entre as quais os diferentes quadros da doença em regiões geográficas distintas, mostram que cada situação epidemiológica da tripanossomíase americana é única em um determinado recorte de espaço e tempo, portanto, generalizações de medidas de controle correm o risco de ser ineficientes.

Alterações ambientais, naturais ou não, resultam na dispersão de animais e consequentemente de seus parasitos para novas áreas criando um novo cenário epidemiológico. Este é um fenômeno especialmente importante com parasitos generalistas como é o caso do T. cruzi. Portanto, a vigilância epidemiológica deve, obrigatoriamente, considerar em cada área-alvo além da fauna de triatomíneos, a diversidade da fauna de mamíferos de vida livre, sinantrópica e doméstica local; o padrão de infecção desta que traduzirá sua competência como reservatório; os padrões da vegetação, clima; alteração do habitat original e alteração da paisagem; e, obviamente, as diferentes sub-populações do parasita que circulam na área.

O estudo da transmissão do T. cruzi entre seus hospedeiros e reservatórios envolve a integração de diversas áreas do conhecimento. Somente a partir de uma abordagem multidisciplinar se poderá estabelecer correlação entre a ecologia da paisagem, o levantamento faunístico, taxas de prevalência e incidência e, finalmente, uma avaliação de risco epidemiológico.

É dentro deste enfoque que temos estudado a transmissão do T. cruzi no ambiente natural. Portanto, aqui são apresentados alguns aspectos relacionados aos ciclos de transmissão do T. cruzi entre seus reservatórios silvestres.