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Interação 30/06/2017

Mecanismo de Interação: Adesão, reconhecimento, sinalização e invasão

Técia Ulisses de Carvalho e Emile Barrias

Programa de Biofísica, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

E-mail: tecia@biof.ufrj.br, emilebarrias@gmail.com

 

A interação entre Trypanosoma cruzi e células hospedeiras pode ser dividida em três etapas: adesão ou reconhecimento, sinalização e invasão.

A adesão envolve o reconhecimento de moléculas presentes nas duas células envolvidas: o parasita e seu hospedeiro. Portanto, a adesão é um processo mediado por receptor, restrito a domínios de membrana. Nem toda forma tripomastigota que adere a uma célula hospedeira invade ou é fagocitada. Nos estudos de interação ente células hospedeiras  e T. cruzi, devemos considerar: (i) a cepa de T. cruzi utilizada; (ii) a forma evolutiva; (iii) a forma do tripomastigota usado (fino ou largo); e (iv) o tipo de célula hospedeira. Os mecanismos de reconhecimento, sinalização e invasão (ou fagocitose) de T. cruzi com células hospedeiras são complexos. Várias moléculas em ambas as células foram implicadas neste reconhecimento inicial, incluindo glicoproteínas, glicolípidos e proteínas do tipo lectina. A maioria das glicoproteínas que participam deste processo são ancoradas por glicosilfosfatidilinositol (GPI), cujo domínio N-terminal externo e variável está localizado na glicocálise do parasita, facilitando a conexão com vários constituintes da membrana celular hospedeira e da matriz extracelular. Uma glicoproteína que tem esta função de reconhecimento entre o parasito e a célula hospedeira é a TSSA. Esta, além do processo de adesão, também esta envolvida em processos de disparo de sinalização, funcionando como antígeno (Camara et al, 2017). Uma das moléculas mais estudadas, presente na membrana plasmática de formas tripomastigotas (mas também em amastigotas, embora em menor quantidade), é uma proteína com atividade neuraminidásica e transialidásica. Esta última enzima remove resíduos de ácido siálico (situados na posição α-1-3) de glicoproteínas, glicolipídeos e oligossacarídeos presentes no meio e os transfere para moléculas aceptoras (chamadas mucinas) presentes na membrana plasmática das formas tripomastigotas. Tem sido mostrado que o ácido siálico atua como molécula moduladora do processo de adesão entre o T. cruzi e as células hospedeiras. As moléculas gp82 (presente em metacíclicos) e gp85 (presente em tripomastigota de cultivo celular) são moléculas da superfamília de gp85/sialidase. Algumas moléculas de T. cruzi são consideradas moléculas pleiotrópicas.  Este é o caso da proteína de calreticulina de T. cruzi, uma vez que está presente não apenas no retículo endoplasmático do parasita, mas também na superfície. Esta proteína participa dos processos-chave para estabelecer a infecção por T. cruzi como a inibição do sistema do complemento e servindo como um importante fator de virulência. Além disso, a proteína da calreticulina (quando ligada aos principais componentes do complemento) participa como uma molécula anti-angiogênica e antitumoral, auxiliando na inibição do crescimento tumoral em animais infectados (Ramirez-Tolosa e Ferreira, 2017).

Dependendo da forma evolutiva do T. cruzi estudada, diferentes moléculas foram identificadas como participantes do processo de adesão parasito-célula hospedeira:

1) Moléculas presentes na membrana de tripomastigotas metacíclicas importantes no processo de interação: gp82 (que se liga à mucina gástrica); moléculas semelhantes a mucinas (gp35/50); gp90 (molécula que modula negativamente a entrada do parasito). Estas moléculas reconhecem receptores, ainda não identificados, nas células hospedeiras. Disparam a maquinaria de sinalização tanto no parasito quanto na célula hospedeira. Sinalização disparada por gp35/50 ou gp90 apresenta baixa ou nenhum aumento de cálcio citoplasmático. As moléculas gp82, gp35/50 e gp90 são ancoradas na membrana plasmática do parasita via âncora de glicosil fosfatidil inositol (GPI).

2) Moléculas presentes na membrana de tripomastigotas obtidos de cultura de células infectadas: gp85 (reconhece componentes da matriz extracelular, como fibronectina, laminina e citoqueratina 18); moléculas semelhantes a mucinas (moléculas com pesos entre 70 e 200 kDa); transialidase (regula negativamente a entrada do parasita). Um antígeno presente na fase aguda da doença de Chagas, antígeno SAPA, foi identificado como transialidase; cisteinas proteases (antígeno gp57/51, cruzipaina); oligopeptidases (serina protease); penetrina, proteína com 60 kDa (afinidade por proteínas da matriz extracelular que se liga a heparina, heparan sulfato e colágeno).

3) Moléculas presentes na membrana de tripomastigotas sanguíneos: moléculas da superfamília da gp85/TS, que se liga a componentes da matriz extracelular (fibronectina/laminina); TSmucina.

Em relação à célula hospedeira (mamíferos), acredita-se que qualquer classe de moléculas expostas na superfície desta tem potencial para ser um receptor ligante de T. cruzi. A maioria das classes de receptores são caracterizados por carboidratos que contêm resíduos de galactosil, manosil e sialil, além de proteínas semelhantes a lectinas (por exemplo, galectina 3) que se ligam a resíduos de carboidratos presentes na superfície do parasita. Algumas lectinas, como a lectina de ligação ao manose, participam de processos de reconhecimento de padrões humorais importante para a defesa do hospedeiro. No caso da doença de Chagas, esta lectina está envolvida na regulação da resistência do hospedeiro e inflamação cardíaca durante a infecção. Outras moléculas que funcionam como receptores possivelmente envolvidos na patogênese da doença de Chagas são endotelina 1 e receptores de bradicinina. Estes são usados ​​por tripomastigotas para invadir células cardiovasculares levando a doença cardíaca chagásica. A citoqueratina 18, a fibronectina, a laminina e as integrinas também são moléculas receptoras, uma vez que o Tc85 presente na superfície do tripomastigota tem motivos que se ligam a estas moléculas, fazendo a ponte do parasita com a célula hospedeira. Abaixo está uma representação esquemática das principais moléculas envolvidas neste processo de reconhecimento.

 

 

Modelo esquemático demonstrando moléculas envolvidas no processo de interação entre parasitas e células hospedeiras e expostas na superfície de uma célula hospedeira hipotética e em tripomastigotas de Trypanosoma cruzi.

Após o reconhecimento (adesão) do parasita à superfície da célula hospedeira, ocorre uma série de processos de sinalização celular que culminaram na sua internalização em uma  célula hospedeira. Vários são os mecanismos para utilizados para este processo. Um mecanismo de entrada é a fagocitose/macropinocitose, onde as células emitem pseudópodes e há participação de filamentos de actina. Embora o processo de fagocitose seja descrito como restito à células especializadas, o processo de macropinocitose pode ser observado em fagócitos profissionais ou não profissionais. Nestes processos há não só a participação de filamentos de actina como também ativação de tirosinas cinases, fosfatodilinositol 3 cinases e PAK cinases (De Souza et al, 2013). A principal diferença entre os processos de fagocitose ou macropinocitose é a emissão de pseudópodos ou ruffles de membrana, bem como a internalização de fluidos extracelulares concomitantes à entrada do parasita. O processo conhecido como autofagia também pode ser desencadeado pela entrada (e formação do autofagosoma) de T. cruzi. Este processo é marcado pela ativação da via de sinalização mTor e pelo recrutamento da proteína LC3b. Mecanismos de endocitose, onde a emissão de pseudópodos não ocorre, mas há envolvimento de filamentos de actina, também estão envolvidos no processo de entrada de T. cruzi visto que receptores presentes em sítios de endocitose mediada por clatrina, bem como proteínas presentes em regiões conhecidas como microdomínios de membrana (flotilins e caveolins), foram descritos como importantes para a entrada deste parasita. As regiões dos microdomínios de membrana também são classicamente conhecidas como “hotspots” de sinalização, uma vez que várias proteínas que desencadeiam diferentes caminhos de sinalização estão relacionadas a esta região. Os tripomastigotas também podem entrar por invaginação da membrana, sem a participação de filamentos de actina. Este último processo tem sido considerado como um mecanismo ativo para a entrada do parasita com o desperdício de energia.

Nos momentos iniciais de reconhecimento do T. cruzi com a célula hospedeira ocorre um aumento transiente dos níveis citoplasmáticos de cálcio (tanto no parasito quanto na célula hospedeira). Esta elevação de cálcio é importante para a entrada do parasito, uma vez que se bloquearmos este aumento transiente de cálcio citoplasmático (por tratamento com tapsigargina, por exemplo), ocorre uma redução nesta entrada.  Foi mostrado também que ocorre um recrutamento de lisossomos para o local de invasão do parasito, embora este fenômeno não ocorra em todos os parasitos que entram (ocorre em cerca de 20%). Além de iniciar o processo de acidificação do futuro vacúolo parasitóforo, os lisossomos tem a função de doar membrana para a formação do vacuolo. Tem sido descrito também a participação de regiões da membrana plasmática e endossomas iniciais das células hospedeiras no mecanismo de entrada. A fusão de vesículas da via endocítica (endossoma inicial, tardio e de reciclagem) é descrita como essencial para a maturação do vacúolo contendo T. cruzi. Qualquer que seja o mecanismo de entrada do parasito, ele fica localizado em um vacúolo endocítico transitório. A este vacúolo sempre ocorrerá a fusão de lisossomos (indpendente se no sítio de entrada ou no decorrer da via endocítica) formando um fagolisossomo. Este vacúolo é dito como transitório pois após cerca de 2 horas, o parasito destrói a membrana deste e escapa para o citoplasma onde termina o processo de diferenciação para amastigota. Tem sido mostrado que os aumentos transientes de cálcio no citoplasma da célula hospedeira, após a interação com formas tripomastigotas do T. cruzi, causa uma reorganização no citoesqueleto de actina. Ocorreria uma despolimerização de actina no local de entrada, facilitando a invasão deste parasito. Vários trabalhos, utilizando citocalasina D (agente que despolimeriza filamentos de actina) para tratar as células hospedeiras antes do processo de interação, mostram dados bastante controversos: alguns autores descrevem que o tratamento inibe a entrada de formas tripomastigotas, enquanto outros descrevem um aumento acentuado nesta entrada. Já outros autores dizem não haver nenhum efeito na entrada de tripomastigotas após este tratamento. Porém, ao analisarmos todos os dados vemos que o tempo de tratamento, os tempos de interação com tripomastigotas, as células hospedeiras utilizadas e as cepas do T. cruzi são diferentes.

O citoesqueleto de actina vem sendo demonstrado como sendo muito importante na retenção de formas tripomastigotas no citoplasma da célula hospedeira. Observa-se, no decorrer da formação do vacúolo parasitoforo, a presença de um cinturão de actina filamentosa ao redor deste vacúolo. Acredita-se que este cinturão estja relacionado ao processo de fragmentação do fagolisossomo. A entrada de formas tripomastigotas ativa nas células hospedeiras um processo de sinalização que leva a invasão do parasito. Em células fagocíticas profissionais ocorre ativação de tirosinas cinases, recrutamento de PI-3 cinase, e actina para o local de entrada do parasito. Estes dados mostram que o principal mecanismo de entrada em macrófagos é por fagocitose. Em células não fagociticas profissionais não ocorre a ativação de tirosinas cinases, como mostrado em trabalhos onde se usa inibidores destas enzimas, não havendo redução do processo de invasão. Ocorre, porém a ativação de PI-3 cinase, e esta ativação parece ser o regulador da fagocitose com participação dos lisossomos da célula hospedeira. Foi mostrada também a participação de tirosina fosfatases neste processo. Recentemente, o processo de invasão de T. cruzi também vem sendo relacionado às microvesículas liberadas por esses parasitas. As microvesículas podem ser secretadas naturalmente ou induzidas por métodos químicos. Essas microvesículas, liberadas por tripomastigotas e amastigotas, podem conter fatores de virulência envolvidos em: (i) invasão de células hospedeiras e desenvolvimento de parasitas intracelulares; (ii) evasão imune; e (iii) aumento do parasitismo cardíaco, inflamação e arritmia que contribuem para a patogênese da doença de Chagas. Além disso, algumas das proteínas segregadas / excretadas atuam como marcadores de diagnóstico para a doença de Chagas (Jazin et al., 1995; Umezawa et al., 1996; Agusti et al., 2000; Bernabó et al., 2013).

 

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Comportamento Intracelular

Técia Ulisses de Carvalho e Emile Barrias

Programa de Biofísica, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

E-mail: tecia@biof.ufrj.br, emilebarrias@gmail.com

 

Vimos no item anterior que formas tripomastigotas de T. cruzi usam diferentes receptores/ligantes para entrar em células hospedeiras. Independente do mecanismo utilizado (seja por fusão de lisossomos no local de entrada do parasito, seja por participação de componentes da membrana plasmática ou por fusão de endossomos iniciais no local de invasão, o parasito vai se localizar em um vacúolo. A membrana deste vacúolo não apresenta todos os componentes da membrana plasmática. Estudos mostram que algumas moléculas são excluídas quando da formação do vacúolo. Logo após, o vacúolo vai se fundir com lisossomos da célula hospedeira, formando o fagolissosomo (vacúolo parasitóforo), passando a apresentar um pH ácido. Os vacúolos parasitóforos desta fase contem fosfatase ácida e também glicoproteínas marcadoras de lisossomos (como as LAMPs). Neste fagolisossomo o T. cruzi, passa por diferentes etapas:

1) O parasito, secreta transialidase/neuraminidase que retirará resíduos de ácido siálico do fagolisossomo tornando a membrana deste vacúolo sensível à ação da Tc-Tox (peptídeo que tem homologia com o fator 9 do complemento humano), que ao se inserir na membrana do fagolisossomo forma pequenos poros que acabam por destruir a membrana do vacúolo parasitóforo. A formação destes pequenos poros, associados com enzimas secretadas pelo parasito, leva à fragmentação da membrana do vacúolo. Durante este período a forma tripomastigota começa processo de diferenciação para amastigota: inicialmente o parasito começa a arredondar, e o longo flagelo fica associado ao corpo do parasito. Recentemente a proteína galectina 3 também foi descrita como uma marcadora de lise do vacúolo parasitoforo de T. cruzi (Reignault et al, 2013);

2) Fragmentação da membrana do vacúolo parasitóforo é observada por microscopia eletrônica de transmissão após cerca de 2 horas de infecção (FOTOS);

3) Liberação para o citoplasma das células hospedeiras das formas em processo de diferenciação. O cinetoplasto começa a mudar de forma (de arredondado, característico de tripomastigota, para a forma de bastão ou barra, que é a organização encontrada na forma amastigota), e migrar para região posterior ao núcleo;

4) A forma amastigota passa então um período de cerca de 20 a 35 horas (de acordo com a cepa) para iniciar a se multiplicar, por divisão binária no citoplasma. Neste processo de multiplicação, há relação direta com organelas da célula hospedeira como as mitocôndrias (Burleigh, 2018) assim como utilização de lipideos do hospedeiro (Gazos-Lopes et al, 2017);

5) Após sucessivas multiplicações, as formas amastigotas, agora ocupando todo o citoplasma da célula (menos a região nuclear) começam um processo de diferenciação para forma tripomastigota. Como o processo de invasão não é um processo sincronizado, e como uma célula pode ser invadida por mais de uma forma tripomastigota, poderemos encontrar na célula repleta de parasitos, formas tripomastigotas (em geral a grande maioria), amastigotas e diferentes formas em processo de diferenciação;

6) A forma amastigota também é infectante. Portanto, se a célula for infectada por formas amastigotas, o inicio do processo de multiplicação é mais rápido, uma vez que a etapa de transformação tripo/ama não vai ocorrer. A forma amastigota também é capaz de usar diversos receptores e vias de sinalização utilizadas por tripomoastigotas para infectar e também lisa a membrana do vacúolo parasitóforo da mesma maneira que a forma tripomastigota;

7) No processo de divisão celular, inicialmente a forma amastigota aumenta de tamanho, ocorre então duplicação do corpúsculo basal, início da divisão do cinetoplasto e modificação da distribuição da cromatina nuclear. Começa então a formação de um novo flagelo. A cromatina nuclear torna-se menos elétron densa (nas observações por microscopia eletrônica de transmissão), e feixes de microtubulos intranucleares aparecem juntamente com placas elétron densas (10 placas foram observadas). Durante a fase de divisão nuclear não ocorre a desintegração da membrana nuclear, sendo uma mitose fechada. Os tripanosomatideos não condensam a cromatina, com formação de cromossomos;

8) Divisões sucessivas ocorrem, levando a ocupação de todo o citoplasma da célula hospedeira, e, dependendo o tamanho da célula hospedeira, centenas de amastigotas são formados. Alguns autores descrevem que a divisão pára quando completa um número definido de divisões (9 divisões);

9) O processo de diferenciação para formas tripomastigotas começa quando termina o processo de divisões de formas amastigotas. Não se conhece muito sobre este processo de diferenciação tripo/ama, parece ter importância a carência de nutrientes nas células altamente infectadas. Estas formas são muito móveis, e secretam enzimas, e acredita-se que estes dois fatores levam ao rompimento da membrana plasmática e posterior liberação das formas tripomastigotas para o meio extracelular.

 

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Interação parasito-cardiomiócito

Mirian Claudia S Pereira, Tatiana Galvão de Melo de Oliveira, Francisco Odencio Oliveira-Jr, Claudia Magalhães Calvet e Maria de Nazareth SL de Meirelles.

Laboratório de Ultra-estrutura Celular, IOC/Fiocruz

E-mail: mirian@ioc.fiocruz.br

 

O tropismo de Trypanosoma cruzi por células musculares, principalmente células musculares cardíacas, pode acarretar cardiomiopatia progressiva na fase crônica da doença de Chagas. O entendimento das bases moleculares do processo de invasão de T. cruzi em células hospedeiras tem sido um desafio e pode contribuir para a compreensão de alterações que ocorrem durante o processo infeccioso. A implementação de modelos de cultivo celular, culturas primárias (2D e 3D) e linhagens celulares, tem permitido avanços no conhecimento de eventos biológicos e moleculares da interação T. cruzi-célula hospedeira.

As interações biomoleculares durante etapa de reconhecimento celular são essenciais para estabelecimento da infecção. Diferentes moléculas estão envolvidas neste processo, mediando a adesão através da ligação de receptores e/ou ligantes da superfície da célula hospedeira e do parasito (Calvet et al., 2012). A superfície negativa de cardiomiócitos modula a adesão e invasão de T. cruzi através da participação de membros da superfamília gp85/trans-sialidases presentes na superfície do parasito. As trans-sialidases (TS) desempenham duplo papel no processo de invasão, removendo ácido siálico da superfície da célula alvo e transferindo-o para aceptores na superfície do parasito e ainda, atuando como molécula multiadesiva com propriedade de ligação à laminina e citoqueratina 18 (Magdesian et al., 2007), através de seus domínios FLY e TS9 (Tonelli et al., 2010, Teixeira et al., 2015). Estudos evidenciaram a capacidade de ligação do domínio FLY de TS com moléculas na superfície de cardiomiócitos e endotélio da vasculatura cardíaca (Mattos et al., 2014, Tonelli et al., 2010, 2011). Carboidratos desempenham um importante papel no reconhecimento de células fagocíticas profissionais e não-profissionais por T. cruzi, sendo a participação de resíduos de manose, galactose, N-acetil galactosamina e N-acetil glicosamina demonstrado na invasão do parasito em cardiomiócitos (Araújo-Jorge et al., 1992, Barbosa & Meirelles 1993). O papel de receptores de superfície e componentes de matriz extracelular também tem sido evidenciado durante o processo de invasão. Estudos revelaram a participação de receptores de manose neste processo, sendo demonstrado uma baixa-regulação destes receptores na superfície de cardiomiócitos infectados (Soeiro et al., 2002). Receptores de superfície celular, como receptores neurotróficos (Aridgides et al., 2013), LDL (Nagajyothi et al., 2011) e bradicininas (Scharfstein et al., 2000), são importantes no processo de invasão de T. cruzi. O bloqueio do receptor TrkC inibe a entrada de T. cruzi em cardiomiócitos e fibroblastos cardíacos (Aridgides et al., 2013). A invasão de células cardiovasculares por T. cruzi parece ser mediada pela interação de cruzipaína, uma cisteína protease de T. cruzi, e cininogênio, modulando a interface entre receptores de endotelina-1 (ETAR and ETBR) e bradicinina (B2R) (Andrade et al., 2012). Componentes de matriz extracelular como proteoglicanos de heparam sulfato (PGHS) também desempenham importante papel na adesão e invasão de T. cruzi em cardiomiócito (Calvet et al., 2003, Bambino-Medeiros et al., 2011, Oilveira-Jr et al., 2008). A interação PGHS-T. cruzi é mediada por proteínas de ligação à heparina (PLHs), presentes na superfície de T. cruzi, que reconhecem o domínio N-acetilado/N-sulfatado da cadeia de heparam sulfato (HS) e participa do disparo do processo de invasão do parasito em cardiomiócitos (Oliveira-Jr et al., 2008). A participação de fibronectina, uma glicoproteína com propriedades adesivas, também foi demonstrada durante o processo de invasão do T. cruzi em cardiomiócitos, sendo esta via de interação mediada pela sequência Arg-Gli-Asp (sequência RGD) da molécula de fibronectina (Calvet et al., 2004).

O mecanismo de invasão de T. cruzi parece ser dependente do tipo celular, genótipo e estágio de desenvolvimento do parasito. Proteínas quinases foram descritas participarem do processo de invasão de T. cruzi (Burleigh, 2005). A ativação de fosfatidilinositol 3-quinases (IP3-K) com recrutamento de AKT foi evidenciada durante invasão de T. cruzi em diferentes tipos celulares, incluindo cardiomiócitos. Quinase de adesão focal (FAK), também dispara a invasão deste parasito. A entrada de T. cruzi, orquestrada pela ativação do complexo FAK/Src, é bloqueada por inibidores farmacológicos específicos e silenciamento de RNA (siRNA) para FAK, levando à redução significativa dos níveis de infecção em cardiomiócitos (Melo et al., 2014). Além disso, T. cruzi é capaz de ativar o fator de crescimento de transformação β (TGF-β) latente e o bloqueio da via de TGF-β, com inibidor SB-431542, reduz a invasão do parasito em cardiomiócitos (Waghabi et al., 2007) e danos no miocárdio (Waghabi et al., 2009). Estudos revelaram que cruzipaína modula a ativação de TGF-β latente (Ferrão et al., 2015) e ainda, que a localização costamérica (costâmeros de vinculina) do receptor tipo II de TGF-β (TGFβRII) é essencial para ativação da via de Smads (Calvet et al., 2016) durante processo de invasão do parasito. Além de participar da entrada e desenvolvimento intracelular do parasito (Waghabi et al., 2005 a,b), o TGF-β está implicado na fibrose cardíaca (Ferreira et al., 2016; Waghabi et al., 2002), sendo o tratamento com inibidores da via de sinalização de TGF-β capaz de reverter o remodelamento de matriz extracelular no microtecido cardíaco in vitro (Ferrão et al., 2018) e no miocárdio (de Oliveira et al., 2012; Araújo-Jorge et al., 2012). Além disso, um processo de invasão dependente de lisossomos foi demonstrado durante interação de T. cruzi, sendo evidenciado um aumento transiente dos níveis de Ca2+ citoplasmático, despolimerização de filamentos de actina no sítio de invasão do parasito e ainda, recrutamento de lisossomos corticais no sítio de adesão do parasito (Rodríguez et al., 1995, Hissa & Andrade 2015). Este evento parece ser regulado pela expressão de colesterol na membrana de cardiomiócitos, uma vez que a depleção de colesterol por metil-β-ciclodextrina (MβCD) desregula a exocitose de lisossomos e reduz a invasão de T. cruzi (Hissa et al., 2012).

Alterações nos níveis de Ca2+ (Garzoni et al., 2003), provavelmente decorrente da abertura de canais de Panexina-1 (Barría et al., 2018), também foram reportadas no modelo de cultivo primário de células musculares cardíacas, mas sem evidencias de desorganização de filamentos de actina no sítio de adesão do parasito (Pereira et al., 1993). A participação efetiva do citoesqueleto de células musculares cardíacas no processo de invasão do T. cruzi foi evidenciada através da visualização de extensões da membrana plasmática da célula alvo envolvendo o parasito (Barbosa and Meirelles 1995). Além disso, o tratamento de culturas de cardiomiócitos com citocalasina B e D, drogas capazes de bloquear a polimerização de actina, reduz significantemente a invasão de T. cruzi, caracterizando um processo endocítico. Embora a célula muscular cardíaca não seja uma célula fagocítica clássica, este tipo celular é capaz de internalizar grandes partículas inertes, incluindo zimosan A (Soeiro et al., 2002). Após interiorização, o parasito encontra-se no interior do vacúolo parasitóforo que se funde a endossomos e lisossomos, resultando na fragmentação da membrana do vacúolo e localização do parasito no citoplasma da célula hospedeira (De Souza et al., 2010). Estudos com linhagens celulares demonstraram que a fusão com lisossomos tem papel fundamental na retenção do parasito no interior da célula hospedeira e consequentemente, o estabelecimento da infecção (Andrade & Andrews 2004). Ainda, os níveis de produtos oxidantes induzidos pela infecção por T. cruzi em cardiomiócitos parece modular o desenvolvimento intracelular do parasito (Dias et al., 2017).

Alterações na estrutura e fisiologia de cardiomiócitos foram evidenciadas durante o desenvolvimento intracelular do parasito. A infecção por T. cruzi induz modificações na expressão de carboidratos de superfície e modula o tráfego intracelular em cardiomiócitos revelado pela baixa regulação de Rabs e seus efetores, incluindo EEA1, Rab7 e Rab 11, evidenciando o comprometimento da via endocítica em cardiomiócitos infectados (Batista et al., 2006). Alterações na arquitetura do citoesqueleto e junções celulares também foram evidenciadas durante o processo infeccioso. A quebra de miofibrilas (Pereira et al., 1993), desorganização de costâmeros (Melo et al., 2004), junções aderentes e comunicantes (Adesse et al., 2008; Melo et al., 2008) podem contribuir para as anomalias evidenciadas na doença de Chagas. As mudanças evidenciadas nos componentes do citoesqueleto não se limitam à desorganização estrutural Alterações nos níveis de RNAm de β e α- actina cardíaca foram demonstradas durante a infecção por T. cruzi (Pereira et al., 2000). Além das alterações no citoesqueleto de cardiomiócitos, estudos demonstraram que a infecção por T. cruzi induz alterações na expressão de componentes de matriz extracelular, apresentando uma redução expressiva de fibronectina na superfície da célula infectada (Calvet et al., 2009). Este evento é regulado pela alteração na distribuição espacial do TGFBRII induzido pela desorganização do citoesqueleto, e inibição da ativação de Smad2/3 (Calvet et al., 2016). Galectina-3 (Gal-3), membro da família de lectinas com afinidade para β-galactose, previne a fibrose cardíaca, controla resposta imune e carga parasitária na infecção experimental por T. cruzi (Silva et al., 2017). Ainda, evidências demonstraram a indução da via de morte celular durante interação T. cruzi-cardiomiócito, sugerindo que a apoptose de cardiomiócitos infectados por T. cruzi pode contribuir para a silenciosa e persistente infecção na fase crônica da doença Chagas (De Souza et al., 2010).

Assim, nas últimas décadas, o estudo da interação com T. cruzi-cardiomiócitos permitiu avanços no conhecimento sobre eventos biológicos envolvidos na interação deste parasita com a principal célula-alvo na infecção humana, contribuindo para uma melhor compreensão da patogênese da doença.