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Vacina e Doença de Chagas – Entrevista com a pesquisadora Santuza Teixeira 25/04/2022

Santuza Maria Ribeiro Teixeira, Professora Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais, líder de grupo do INCT Vacinas, sub-coordenadora do Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas)e membro Titular da Academia Brasileira de Ciências participou de uma entrevista exclusiva para o Portal da Doença de Chagas onde ela conta o que a levou a estudar o DNA do Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de chagas e quais são os próximos passos para a produção e distribuição de uma vacina para a doença.

O que a levou a estudar o DNA do protozoário parasito Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas?

Muito obrigada, Fernanda, por esse convite. É um prazer muito grande poder falar sobre o trabalho desenvolvido aqui na Universidade Federal de Minas Gerais. Meu nome é Santuza Teixeira, sou professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia e atualmente sou a subcoordenadora do Centro de Tecnologias em Vacinas, que é uma estrutura de laboratório recente que a gente criou aqui no Parque Tecnológico de Belo Horizonte, vinculado à universidade.

A primeira pergunta que você colocou diz respeito a uma decisão tomada por volta de 1982, quando eu estava ainda cursando Ciências Biológicas UNB, em Brasília. Nesse momento houve o surgimento de uma novidade muito importante para a ciência mundial, que na época a gente chamou de engenharia genética. Foi quando os pesquisadores, principalmente nos Estados Unidos, na Califórnia, começaram a demonstrar metodologias que permitiam ao pesquisador alterar a sequência de DNA dos organismos, alterando as características fenotípicas de determinadas bactérias. Aquilo me chamou a atenção de uma forma muito especial, porque eu percebia que era uma tecnologia muito poderosa e muito importante, no sentido de ser capaz de solucionar problemas, principalmente na área da saúde, mas também na área agrícola, na produção de alimentos, controle de pragas e etc.

Eu era estudante de iniciação científica no laboratório do professor Spartaco Astolfi e nós começamos, sem muita estrutura, sem muita experiência, a fazer alguns estudos com o Trypanosoma cruzi, que era um modelo de estudo do laboratório, utilizando essas metodologias. Esse foi o início de uma trajetória e a gente acabou publicando o primeiro trabalho em 1986, mostrando que a gente tinha capacidade de fazer manipulação de DNA de Trypanosoma cruzi e, de lá para cá, foi toda uma carreira de pesquisa voltada para estudar o genoma desse parasito.

No que consiste a técnica denominada CRISPR e como ela impactou a pesquisa da doença de Chagas?

Eu chamo atenção agora para uma segunda onda que aconteceu em 2012. Eu já era professora na Universidade Federal de Minas Gerais, já tinha um grupo de pesquisa bem consolidado e a gente já tinha trabalhado com sequenciamento do genoma do Trypanosoma cruzi. Em 2005 nós publicamos junto com um consórcio de grupos internacionais, um artigo intitulado The genome sequence of Trypanosoma cruzi, etiologic agent of Chagas disease, que foi publicado na revista Science. Foi uma conquista muito importante porque uma vez que você tem todo o genoma sequenciado de um patógeno qualquer, isso facilita imensamente todas as pesquisas subsequentes que você pode fazer com esse organismo, é o caso do vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19, por exemplo.

Então, em 2012 uma pesquisadora professora da Universidade da Califórnia em Berkeley chamada Jennifer Doudna publica uma metodologia nova denominada CRISPR que usa um mecanismo comumente encontrado em bactérias para se defender de ataques de vírus, para fazer manipulação de genomas de organismos de uma forma infinitamente mais eficiente. Antes de CRISPR, toda vez que no meu laboratório uma pessoa precisava estudar um determinado gene do Trypanosoma cruzi (para isso a gente tem a estratégia de fazer o “nocaute”, ou seja, fazer a destruição daquele gene e ver o que acontece com o organismo para tentar inferir qualquer função daquele gene) esse estudante de doutorado gastava três anos para fazer isso, e na hora que ele conseguia gerar o “nocaute” já estava terminando a tese dele e não dava tempo de fazer muita coisa. Aí vem CRISPR, que é uma a tecnologia muito mais rápida, mais eficiente, mais precisa. Enquanto nós gastávamos um ano, dois anos para fazer manipulação de genoma agora nós gastamos um mês. Em função disso, em 2020 Jennifer Doudna foi laureada com o Prêmio Nobel de Química, junto com Emmanuelle Charpentier, pelo desenvolvimento de um método de edição de genoma.

A técnica consiste na manipulação de genoma utilizando uma proteína de bactérias chamada Cas9, que é capaz de alterar uma sequência no genoma de qualquer célula, pode ser uma célula humana, pode ser uma célula do Trypanosoma cruzi, de forma muito eficiente, muito precisa. Isso, de fato, significa que as pesquisas vão ainda avançar, a gente ainda não o tanto que essa nova tecnologia vai impactar na ciência. Nós já estamos vendo, por exemplo, que a famosa terapia gênica, alardeada há muitos anos, que seria capaz de corrigir doenças fazendo a manipulação do genoma humano, agora se torna realidade. Testes clínicos já demonstraram que é possível alterar o genoma de pessoas que têm um tipo de anemia, por exemplo, de forma que essa pessoa não precise mais de remédio, a doença seria totalmente resolvida por meio de alteração da sequência dos genes que estão causando essa anemia.

Então esse é um marco importante. Logo que nós tomamos conhecimento dessa metodologia, nós trouxemos aqui para Minas Gerais, adaptamos o protocolo para estudar o genoma do Trypanosoma cruzi e um dos resultados que a gente obteve recentemente foi justamente demonstrar que a gente agora consegue remover genes do Trypanosoma cruzi que são importantes para esse parasito causar a doença de Chagas. Com a remoção desses genes, a gente gera o que é chamado de cepa atenuada. O patógeno não morre, ele ainda consegue se instalar no organismo, mas ele não causa doença. Ele não causando a doença, ele gera uma resposta imune que faz com que esse animal que recebeu o Trypanosoma cruzi atenuado por CRISPR (isso foi feito em modelo animal, em camundongos) fique totalmente resistente à infecção por um Trypanosoma cruzi virulento.

Esse é um trabalho que a gente publicou no ano passado que mostra que com essa tecnologia a gente agora pode considerar a possibilidade de desenvolver uma nova estratégia de vacina para a doença de Chagas, já que até hoje todas as estratégias de vacina não se mostraram capazes de oferecer uma proteção importante contra a doença. O desenvolvimento de patógeno atenuado, segundo os dados que a gente obteve, parece ser uma maneira de obter uma forte proteção contra a infecção.

Uma vacina produzida por essas técnicas poderia também ser utilizada em portadores da doença?

A gente fala de vacinas profiláticas, que impedem a pessoa de ser infectada, mas nós também podemos falar de vacinas terapêuticas. A vacina terapêutica é aquela que vai induzir uma resposta imune nas pessoas que já estão infectadas para que elas possam combater a infecção juntamente com a medicação, de forma a impedir que a infecção possa desenvolver para uma forma grave. Então, a princípio, essa estratégia  de vacina utilizando o patógeno atenuano por CRISPR teria, como aplicação mais imediata, a de vacina terapêutica. Aplica-se um patógeno que não é mais causador de doença em uma pessoa já infectada para aumentar a resposta imune e ajudar essa pessoa a eliminar o organismo que está causando a doença. Essa parece ser uma estratégia muito interessante que obviamente vai precisar ainda passar por uma série de testes.

Quais os próximos passos para que uma vacina como esta esteja acessível para o público?

Com base na experiência que a gente vem tendo aqui no Centro de Tecnologias com a vacina de COVID-19 e agora com a vacina de malária que a gente está iniciando possivelmente os testes clínicos em alguns meses, a gente percebe que uma coisa é você planejar o desenvolvimento de vacina e mostrar que ela tem potencial utilizando o modelo animal, e outra coisa é iniciar testes clínicos em voluntários. Nós passamos pela primeira pelo processo de submissão à Anvisa com a vacina de COVID-19 e a gente vê que existe um longo caminho, com uma quantidade enorme de testes que precisam ser feitos em pelo menos três modelos animais antes de passar para o ser humano. Então, no caso da vacina de Chagas, nós só testamos em camundongos, nós queremos testar agora em cães. O modelo de cão é um modelo interessante para a doença de Chagas porque eles são infectados e servem como reservatório para propagação do Trypanosoma cruzi. O terceiro modelo possivelmente vai ser em primatas não humanos, até que a gente possa ter um conjunto de dados sólido e mostrar não só a eficácia, mas também a segurança da vacina.

Diante do cenário político e científico atual, qual mensagem você deixaria para a futura geração de cientistas?

É preciso deixar claro que essa experiência e o fato de nós termos chegado na vacina de COVID-19, iniciando testes clínicos da vacina de malária e avançando nas pesquisas de vacina para doença de Chagas, tudo isso vem de um longo processo de aprendizado. É uma carreira que a gente nunca para de estudar e de aprender. Então, quem gosta de estudar, de ler e de aprender é uma carreira fantástica por causa disso e é também uma carreira extremamente interessante em termos de recompensas. O tempo todo a gente gera resultados e isso traz uma satisfação muito grande. É claro que, no meio disso, existem momentos de frustração que são extremamente frequentes e alguns muito graves. Um experimento que você planejou por seis meses no final não deu certo, dá vontade de largar tudo e ir embora para casa. Isso de fato acontece e é muito frequente, você repetir aquele teste uma, duas, três, quatro vezes até o resultado ficar tecnicamente bom e aceitável, mas isso é parte do processo. As pessoas que têm interesse de seguir uma carreira científica, elas têm que pensar que as coisas são assim. É um pacote completo, com muitas recompensas, mas muitos desafios.

A outra coisa é que a gente está em um momento, tanto na ciência internacional como na ciência brasileira, de muita exposição dos cientistas. Nós nunca nos sentimos tão participante das conversas de boteco, das conversas de família. O papel do cientista, por causa da COVID-19, foi colocado no seu devido lugar, e é essa visão do cientista como uma pessoa que trabalha duro, que consegue gerar resultados que são importantes para a vida das pessoas, eu acho que ficou muito clara agora. Eu sinto que é um pouco mais fácil para mim, quando eu vou dar aula, conseguir convencer os meus alunos de que é uma carreira que vale a pena, que é muito bacana e que a gente agora está tendo um reconhecimento mais agradável por parte das pessoas que não fazem parte desse ambiente científico. Eu digo sempre aos meus alunos começando biologia nesses anos de agora, entrar para um curso de ciências biológicas ou qualquer carreira ligada a pesquisa, é um momento espetacular para isso agora.